Gotas de Júpiter

4 de março de 2021

   Hoje me peguei escutando uma música que considero a minha favorita há 10 anos. Para quem me conhece, isso não é um feito muito raro: me apego a histórias e música de uma forma que jamais me apeguei a coisas ou pessoas. Drops of jupiter do Train é uma música extremamente poética e melancólica, do jeito que eu considerava minha vida quando mais nova - hoje em dia a considero apenas melancólica. 

    Há 10 anos atrás eu sonhava e muito. Meu maior sonho era ser escritora e hoje escrevo rascunhos para a minha gaveta ou quando muito, acabo por publicar neste blog falido fingindo que alguém vai ler. Eu sonhava que ia viver viajando o mundo e voltei para uma cidade do interior tão empoeirada quanto o meu pequeno baú de lembranças. Eu até sonhava com amor, olha só o tamanho da ironia. Eu até tinha amigos, hoje em dia mal consigo contá-los nos dedos da mão esquerda. 

    Eu acho que parte do amadurecer é deixar os sonhos de lado e encarar o amargor da realidade. Deixar as viagens pela via láctea para uma próxima vida, quem sabe? E finalmente encarar que a vida não é aquela música melodiosa do Train e sim algo muito parecido com uma flauta desafinada que toca enquanto tentamos juntar os cacos do que sobrou. Um vislumbre do que costumávamos ser, até qu,e aos poucos, só sobrará o pó. 

    O que sobrou de mim foi apenas uma lembrança, um sombra de um sorriso e uma música velha que é considerada deveras brega pela nova geração. Não há fotos, não há família e não há um lar. A minha vida cabe em duas malas e eu vou para onde o vento me levar porque eu aprendi que a minha jornada é solitária. E ao contrário do que a música diz, não haverá alguém me esperando quando eu voltar da minha viagem pela via láctea. E eu não trouxe comigo gotas de jupiter no cabelo. 

Nós, pessoas não apaixonantes

6 de julho de 2019


Trilha sonora: Make it rain - Ed Sheeran 

       Eu tenho escrito sobre sentimentos desde que me conheço por gente. Me tornei profissional no quesito ler pessoas, interpretá-las e eternizá-las em uma folha de papel, ou neste caso, em um arquivo do Word. Muitos de vocês podem me chamar de ladra, pois no fundo é isso que eu faço: Absorvo histórias de outras pessoas e as transformo em textos na primeira pessoa do singular como se todos aqueles sentimentos fossem meus, mesmo que nunca tenha experimentado sequer uma das sensações que as minhas vítimas experimentaram. 
Isso pode parecer um tanto quanto perturbado, aposto que vocês estão se perguntando o motivo de eu não estar sentada no divã de um terapeuta nesse exato momento. Confesso que já conheci mais psicólogos do que gostaria, mas nunca cheguei a um resultado conclusivo. 
    Acho que esse, no fundo, é o problema de grande parte dos escritores. Nós estamos tão acostumados a interpretar sentimentos alheios, escrever uma vez, duas, três até que fique perfeito que quando resolvemos falar sobre os nossos sentimentos não sabemos expressá-los porque não conseguimos distinguir o que é real e o que não é, e então deixamos o nosso "eu" de lado para mergulhar no mundo de nossos personagens e suas histórias fantásticas. 
Nos tornamos tão bons em contar a história dos outros que esquecemos de viver as nossas, porque, adivinhe só? A nossa vida é narrar uma realidade que não nos pertence e então, aos poucos, as histórias são tudo o que nos resta. Nos tornamos invisíveis e esquecemos de protagonizar a nossa própria história enquanto todo o resto do mundo se transforma em personagens de algum romance que estamos escrevendo. 
       Nos tornamos não apaixonantes porque estamos ocupados demais apaixonados perdidamente por histórias. Pelo menos foi assim que aprendi a lidar com frustrações da vida real. O amor que tanto escrevemos sobre é resultado de um tipo de amor que nós, escritores, conhecemos bem. Trata-se do amor não correspondido.  É ele que nos faz escrever, pois sufoca tanto que o único remédio possível para curar essa angústia é sentar na frente de um computador e digitar sem parar até que o peito esteja mais leve. E com isso, nos acostumamos a fazer parte do elenco coadjuvante da nossa própria vida.
Eu nunca esperei muito de alguém, aprendi desde muito nova que o meu "perfil" não é adequado para o amor e, por conseguinte, tratei de ajustar-me ao backstage. Acho que foi a escolha mais sábia que tomei na vida - ou a mais segura. Eu prefiro continuar na minha safezone do que sentir aquela dor no peito novamente.
    Talvez amanhã eu escreva a história de vocês aqui. Do grande amor das suas vidas ou da grande decepção, mas hoje, só por hoje, eu precisava usar as palavras para tirar a angústia do meu peito. 
  

Amor em tempos de Tinder

13 de junho de 2019


"Vivemos tempos líquidos. Nada é feito para durar" Zygmunt Bauman


         Se eu tenho uma convicção nessa vida é que todos nós temos pelo menos uma história de amor para contar. Acontece que nessa era de aplicativos de relacionamentos, o que poderia ser uma história se transformou em duas, dez, vinte. Colecionamos matches como se fossem figurinhas daqueles álbuns do Digimon no início dos anos 2000.  Nos apaixonamos e desapaixonamos em questão de minutos e partimos para a próxima assim que o Tinder mostra a notificação de um novo match e isso afetou de forma quase generalizada como nos relacionamos com outras pessoas. Esquecemos que por trás dos avatares, das descrições engraçadinhas com algum meme do Neymar e fotos colocadas em uma ordem estratégica nos perfis, existe um ser humano.
Ao mesmo tempo que esses aplicativos vieram para facilitar a nossa vida para conseguir algo (seja lá o que você esteja procurando nos aplicativos), penso que tenha dificultado a nossa capacidade de relacionar-se com outras pessoas na mesma proporção. Não sei vocês, mas eu me sinto incapaz de sentir um apreço prolongado por alguém e desapego tão rápido que nem consigo mensurar o tempo. É tudo muito rápido. Hoje estou falando com fulano, amanhã com ciclano e paralelamente com o beltrano e dois dias a partir de agora provavelmente vou esquecer de responder um deles. Ou todos. Aí vem mais uma leva de matches e o ciclo se repete. E aqueles encontros de olho no olho ficam cada vez mais raros e todo o interesse que posso sentir por alguém se resumo a um like em uma foto ou responder os stories de alguém.  Acho que no fundo a nossa geração está resumida a isso: Migalhas virtuais.
       Entrei no meu Tinder esses dias, percebi que havia mais ou menos uns 300 matches. Parece muito, mas tenho o meu perfil ativo desde o início de 2017 e já viajei muito por aí. Desses 300, devo ter umas 100 conversas em aberto e a maior parte delas não passou do "oi, tudo bem?". Posso afirmar com toda a certeza que saí com menos de 10% das pessoas que acumulei durante os anos no aplicativo. Tenho algumas histórias bem divertidas para contar (quem sabe eu não escrevo algum texto sobre elas?) e outras bem estranhas. Mas a questão não é falar sobre o número de combinações que tenho no aplicativo, mas sim o que há por trás disso. Me deparei pensando sobre quem são essas pessoas. Elas são mais que meros números ou piadinhas do Neymar na bio. Cada pessoa por trás da sua foto de perfil tem uma história, gosto para vinho e um sonho diferente e por mais que essa pessoa tenha algo incrível para contar eu não consigo quebrar esse muro digital que construi para saber mais. Nossas relações são efêmeras porque estamos acostumados à facilidade de simplesmente apertar um botão.
        Não acho que os aplicativos de relacionamento sejam os grandes vilões da nossa época, mas talvez a forma com que lidamos com eles. O mundo está acelerado, os dias passam como se fossem minutos e acabamos transformando a comunicação em algo banal e, antes que a gente perceba, está atribuindo visualizações nos stories a algum tipo de interesse genuíno. Interesse que pode ser real, mas no fundo estamos todos muito ocupados conferindo quantas curtidas tivemos na nossa última foto para tentar desenrolar algo a mais. A verdade é que nunca tivemos tantas opções a livre escolha, mas ao mesmo tempo nunca nos sentimos tão sozinhos e isso independe se você quer somente um encontro casual ou algo a mais. Vivemos esse conflito interno dia após dia até que o Tinder nos envie a notificação de um novo match. E aí o ciclo se repete. De novo. 

O destino é um cretino.

24 de março de 2019

"Karma is a bitch"


Era uma noite agradável de início de primavera e eu me encontrava sentada em um bar com três amigas de longa data conversando sobre a vida. Fazia bastante tempo que nós não nos encontrávamos por causa da rotina cada vez mais pesada. A vida adulta bateu na nossa cara tão forte que, nos raros momentos que conseguíamos nos ver, nos juntávamos para ajudar a curar as feridas umas das outras e rir um pouco da vida.

Nos conhecemos no início da faculdade e o destino se encaminhou do resto, apesar de que, se você analisar cada uma de nós, vai perceber que somos completamente diferentes umas das outras. Se me perguntarem o que nos uniu eu nunca vou saber dizer. Vai ver a Lei de Coloumb funciona para pessoas também.
De todas, posso dizer que sempre fui a menos apaixonada. Nunca tive alguém que realmente fizesse o meu coração disparar, enquanto as meninas são mais intensas nesse sentido. Eu achava isso, pelo menos, até que aconteceu.


- Meninas, eu preciso contar uma coisa para vocês.

- Lá vem bomba.


Normalmente quando eu digo "Preciso contar algo para vocês" elas se preparam para um grande choque. Tipo a vez que resolvi fazer a segunda graduação ou que simplesmente terminei um namoro antes de ir ao cinema.



- Não é nada demais, eu só conheci um cara. - Elas continuaram me olhando porque não sou o tipo de pessoa que leva o assunto homens à tona quando estamos conversando. - E foi breve. Ele nem é daqui. Provavelmente nunca mais vou vê-lo. O problema é que eu acho que ele levou um pedacinho do meu pobre coraçãozinho junto com ele.

- AI MEU DEUS, nunca achei que ouviria essas palavras saindo da tua boca.
- Olha que bonitinha, ela tem um coração.


Fiquei extremamente supresa com a primeira reação delas. Não achei que passasse uma imagem de uma pessoa tão emocionalmente indisponível.


- Eu acho que é bobagem, não tem como ficar tão mexida por alguém em tão pouco tempo. Foram poucos dias e tal.

- Tem sim, amiga. A gente não escolhe.
- Como assim? - Confesso que a frase da minha amiga me deixou curiosa pois de todas, ela sempre foi a mais centrada.
- Obviamente não se ama uma pessoa em tão pouco tempo, mas é perfeitamente possível ter um crush.

Bom, acho que não tenho muito o que discutir. Essa minha amiga namora há oito anos. Se tem uma pessoa naquele grupo que já passou por todas as fases de um relacionamento é ela.


- E o que eu vou fazer agora? - Por mais boba que seja a pergunta, foi sincera. Eu nunca me apaixonei por alguém a ponto de sentir as borboletas no estômago. Não sei lidar com sentimentos muito fortes além de raiva. - Eu me sinto triste porque nunca mais vou ver o cara e isso me fez sentir angustiada a semana inteira.

- É uma merda. Eu já me senti assim e não tem o que fazer. Eu contei para vocês do cara da minha viagem, né? Chorei por dias. - Respondeu minha outra amiga - A gente se apega e cria a merda da expectativa. Até hoje eu sinto alguma coisa por ele.
- Não vai passar então?
- Acho que não. Tu ainda vai sentir isso por um bom tempo.


Mas que merda. Com TANTA, mas TANTA gente por perto. Com mais de 100 matches nos aplicativos de relacionamento. Com uma lista de contatinhos na agenda do celular... Eu tinha que sentir com uma paixonite aguda por um cara que nunca mais verei na minha vida? Se existe esse tal de destino, ele está sendo um completo filho da puta comigo.



- Expectativa é uma merda mesmo, né? A gente tá lá de boas e quando vê cria milhares de possibilidades na nossa cabeça. - Falou a terceira amiga - Tu vai sofrer um tempo com isso, te acostuma.

- Eu não quero.
- Bom amiga, não tem o que fazer, aconteceu.
- É. E se for para chorar vamos pegar aquela espumante que tu guardou na geladeira para afogar as mágoas com estilo. - E bebemos. 

Do chão a gente não passa ou da Terceira Lei de Newton.

21 de março de 2019

"toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade: As ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos"
Terceira Lei de Newton

       Se existe uma única certeza nessa vida terrestre é que o mundo gira. Em 365 dias a Terra faz uma volta completa em torno do Sol e, minha gente, em um ano muita coisa pode mudar na nossa vida. 
     Não sou uma pessoa que gosta de surpresas e fujo de coisas não planejadas. Tenho ansiedade e portanto só o fato de algo não sair exatamente como eu planejei me dá palpitações, mas não é segredo para ninguém que nem tudo sai como a gente quer. E isso me dá muito medo. 
Até um ano atrás me via cheia de esperanças, com a vida inteira planejada - pelo menos até o doutorado - e conseguia dormir tranquila sabendo que se seguisse exatamente os passos que havia traçado, o universo conspiraria ao meu favor. Obviamente quando falo que o universo tem a capacidade de conspirar, me refiro ao sentido figurado da palavra, afinal de contas, sou uma estudante de física e se tem uma coisa que eu sei é que o universo é alheio a minha existência.
Dito e feito: Embora eu achasse que tinha tudo sob controle, as coisas começaram a desmoronar. Absolutamente nada que eu fazia dava certo. Nada. Levantar da cama e sair para encarar o mundo havia se transformado em um pesadelo. Eu não tinha mais vontade de estudar, ler e nem comer.              Comecei a comprar coisas que não queria e nem precisava porque tinha a necessidade de preencher o enorme vazia que a minha existência se tornou. Eu precisava me apoiar em alguma coisa. Qualquer coisa. Se aparecesse algum membro da Carreta Furacão vestido de Yoda com alguma frase pronta sobre destino, possivelmente eu acreditaria. 
Precisava de amigos. Precisava de muita ajuda para sair do buraco que havia me enfiado, mas onde eles estavam? Eu sempre fiz tudo pelos meus amigos e na hora que eu mais precisei parece que haviam tomado chá de sumiço. Contei com a ajuda de meia dúzia de gatos pingados que tiveram muita paciência e força para me ajudar a levantar. O resto voltou a aparecer quando precisou de algum favor ou conselho. A esses, meu mais sincero foda-se. 
     O que posso dizer? Foi um ano intenso, cheio de mais baixos do que altos. Consigo contar nos dedos de uma única mão as vitórias que conquistei e quando pensei que finalmente as coisas estavam melhorando... BAM! Eu tive um semestre horrível na faculdade, seguido de uma notícia horrível que me deixou vomitando de nervosismo durante duas semanas. O resultado? Um final de semana inteiro no hospital tomando Rivotril na veia e um laudo atestando crises de pânico e ansiedade. Apoio emocional? Só de alguns livros de auto-ajuda. Os amigos da faculdade que tanto viviam me pedindo ajuda? "Nunca nem vi". Eu estava jogada na lama sem perspectiva de melhoras ou de continuar em frente. Foi um processo longo e doloroso até voltar a ter coragem para sair do quarto sem ter algum tipo de crise de pânico. 
Talvez você esteja se perguntando o que raios a Terceira Lei de Newton tem a ver com esse dramalhão. Bom, acontece que a Terceira Lei de Newton explica que quando uma força é aplicada por um corpo em outro, esse último exerce a mesma força de volta no primeiro. E no meu caso, o sistema de dois corpos era composto por mim e pelo chão, onde passei jogada mais de 80% por cento do ano. Por mais que eu insistisse em ficar jogada sem nenhuma perspectiva futura, a fossa deu um jeito de me mostrar que apesar de tudo ainda sobrou um pouquinho de força para levantar e foi isso o que eu fiz: Apliquei uma força tão forte no chão que consegui levantar. Um pouco machucada, mais um pouco mais sábia e bem menos trouxa. Liguei o botão do foda-se e o deixei emperrar. 
Por mais que as coisas não estejam exatamente como eu gostaria que tivessem, aprendi que não há nada que me deixe jogada na sarjeta durante muito tempo, pois eu sempre vou dar um jeito de levantar porque, se tem algo que eu aprendi esse ano, é que do chão a gente não passa.