Amor em tempos de Tinder

13 de junho de 2019


"Vivemos tempos líquidos. Nada é feito para durar" Zygmunt Bauman


         Se eu tenho uma convicção nessa vida é que todos nós temos pelo menos uma história de amor para contar. Acontece que nessa era de aplicativos de relacionamentos, o que poderia ser uma história se transformou em duas, dez, vinte. Colecionamos matches como se fossem figurinhas daqueles álbuns do Digimon no início dos anos 2000.  Nos apaixonamos e desapaixonamos em questão de minutos e partimos para a próxima assim que o Tinder mostra a notificação de um novo match e isso afetou de forma quase generalizada como nos relacionamos com outras pessoas. Esquecemos que por trás dos avatares, das descrições engraçadinhas com algum meme do Neymar e fotos colocadas em uma ordem estratégica nos perfis, existe um ser humano.
Ao mesmo tempo que esses aplicativos vieram para facilitar a nossa vida para conseguir algo (seja lá o que você esteja procurando nos aplicativos), penso que tenha dificultado a nossa capacidade de relacionar-se com outras pessoas na mesma proporção. Não sei vocês, mas eu me sinto incapaz de sentir um apreço prolongado por alguém e desapego tão rápido que nem consigo mensurar o tempo. É tudo muito rápido. Hoje estou falando com fulano, amanhã com ciclano e paralelamente com o beltrano e dois dias a partir de agora provavelmente vou esquecer de responder um deles. Ou todos. Aí vem mais uma leva de matches e o ciclo se repete. E aqueles encontros de olho no olho ficam cada vez mais raros e todo o interesse que posso sentir por alguém se resumo a um like em uma foto ou responder os stories de alguém.  Acho que no fundo a nossa geração está resumida a isso: Migalhas virtuais.
       Entrei no meu Tinder esses dias, percebi que havia mais ou menos uns 300 matches. Parece muito, mas tenho o meu perfil ativo desde o início de 2017 e já viajei muito por aí. Desses 300, devo ter umas 100 conversas em aberto e a maior parte delas não passou do "oi, tudo bem?". Posso afirmar com toda a certeza que saí com menos de 10% das pessoas que acumulei durante os anos no aplicativo. Tenho algumas histórias bem divertidas para contar (quem sabe eu não escrevo algum texto sobre elas?) e outras bem estranhas. Mas a questão não é falar sobre o número de combinações que tenho no aplicativo, mas sim o que há por trás disso. Me deparei pensando sobre quem são essas pessoas. Elas são mais que meros números ou piadinhas do Neymar na bio. Cada pessoa por trás da sua foto de perfil tem uma história, gosto para vinho e um sonho diferente e por mais que essa pessoa tenha algo incrível para contar eu não consigo quebrar esse muro digital que construi para saber mais. Nossas relações são efêmeras porque estamos acostumados à facilidade de simplesmente apertar um botão.
        Não acho que os aplicativos de relacionamento sejam os grandes vilões da nossa época, mas talvez a forma com que lidamos com eles. O mundo está acelerado, os dias passam como se fossem minutos e acabamos transformando a comunicação em algo banal e, antes que a gente perceba, está atribuindo visualizações nos stories a algum tipo de interesse genuíno. Interesse que pode ser real, mas no fundo estamos todos muito ocupados conferindo quantas curtidas tivemos na nossa última foto para tentar desenrolar algo a mais. A verdade é que nunca tivemos tantas opções a livre escolha, mas ao mesmo tempo nunca nos sentimos tão sozinhos e isso independe se você quer somente um encontro casual ou algo a mais. Vivemos esse conflito interno dia após dia até que o Tinder nos envie a notificação de um novo match. E aí o ciclo se repete. De novo. 

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